Brasileiros mal conhecem a Venezuela que os imigrantes trazem na bagagem

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Venezuelanos começam a liderar as cifras de imigrantes no país enquanto brasileiros confundem as razões de sua saída. Quem vive em Pacaraima já sentiu hostilidade. Quem fica em São Paulo tem mais sorte.

Rosalva preparava as arepas e empanadas que vendia em seu carrinho de comida típica antes da pandemia, enquanto um cliente brasileiro falava entusiasmado sobre a crise da Venezuela. Rosalva sorria em silêncio e tentava mudar o rumo da prosa, enquanto ocultava uma lágrima no canto do olho. Não queria estender o assunto que a trouxe até o Brasil, mas não podia ser indelicada. Há cinco anos morando em São Paulo, esta engenheira de Puerto Ordáz rendeu-se a sua nova realidade de imigrante depois de ver a violência aumentar na região em que morava e assistir ao custo de vida disparar. Não foi só isso. A existência de listas na empresa em que trabalhava com os nomes de quem votou ou não no chavismo era algo que a sufocava há muito tempo. Trabalhava na companhia Edelta, a principal hidrelétrica venezuelana, e junto com o marido, no fim de semana, ministrava cursos de gastronomia que havia criado.

Com a entrada de Nicolás Maduro o que era ruim se tornou insuportável, lembra Rosalva, de 37 anos. Os sinais de um quadro de desordem estavam em toda parte e a perspectiva era de que tudo só iria piorar. Protestos de rua em 2014 mataram mais de 40 pessoas, oposicionistas foram presos, e o governo do então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, baixou sanções econômicas contra o seu país. Os tempos de bonança chegavam ao fim e o país pagava um preço alto. “Uma bolha estourou”, diz ela.

O Brasil não era a sua primeira opção. Havia vindo ao país visitar seu irmão, que chegou aqui em 2013 para atuar no Programa Mais Médicos e fazer uma especialização em cirurgia plástica. Acabou ficando. Rosalva aterrissou para a visita familiar em pleno Carnaval e a multidão nas ruas a assustou. Ela e seu marido, formado em Administração, tinham em mente emigrar para os Estados Unidos. Mas quando voltaram a seu país sentiram um choque. “De repente, tudo se agravou, foi muito rápido”, lembra Rosalva. “Estávamos trancados em casa, o dinheiro já não dava para nada, e começamos a ver sequestros no nosso bairro, que antes era uma zona segura”, conta ela, que é mãe de Angelo. “Em novembro de 2015 já estávamos aqui”, conta. Ter o irmão por perto ajudou a se decidir pelo Brasil. Depois, outra irmã seguiu seu exemplo e o Brasil se transformou, do dia para a noite, na pátria da sua família, embora seus pais permaneçam na Venezuela. Neste final de ano os pais vieram se reunir com a família para o Natal aqui.

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