Gucci retrata desencanto da juventude

De todas as grifes do luxo, a Gucci é hoje a única que pode se gabar de ser adjetivo e substantivo no vocabulário da cultura. “Estilo Gucci” escrevem jornais quando querem definir coleções que reverenciam o vintage-chique criado pela marca em 2015.
“Gucci Gucci” e “Gucci Please” ecoam nas rádios os dois hinos do hip hop contemporâneo escrito pelos rappers Gucci Man (o ápice da mania) e Kreayshawn.
A marca virou símbolo do cool, da estética teatral aplicada à moda e, por isso, seu primeiro desfile na semana de moda de Paris parou a região dos Grands Boulevards, em Montmartre, e transformou, na noite de segunda-feira, o lendário teatro Le Palace em centro do ufanismo fashion no Hemisfério Norte.
Os porquês dessa loucura estavam descritos em cada detalhe do espetáculo visual proposto pelo autor da guccimania, o estilista italiano Alessandro Michele.
Midas do grupo Kering (também dono da Balenciaga), com faturamento de R$ 27 bilhões só no primeiro semestre de 2018, o designer retratou o desencanto da juventude para a qual corta panos.
A peça começa no palco. Uma tela quadrada, com os mesmos formatos dos retratos do Instagram, exibe um curta encardido, no qual um homem e uma mulher se autoflagelam, anestesiados por alguma droga que bateu mal.
“Decadência com elegância” define a coleção que, paulatinamente, surge nos modelos estranhos da Gucci.
Releituras da indumentária dos roqueiros da época de Woodstock, com direito a chapéu tipo Janis Joplin e jaquetas bordadas adornadas com franjas tipo as de Jimi Hendrix, arrematam os conjuntos de alfaiataria.
Ora tingidas com cores berrantes, ora embebidas com os logos da Gucci, as peças falam da nostalgia desse ideal de paz e amor cantado nos festivais de antigamente, uma fantasia cortada pelo conservadorismo que ascendeu no pós-11 de Setembro.
Assim, o espaço do teatro dialoga com a ideia de fim de festa, já que ali foi gestada, no fim dos 1970 e início dos 1980, a cena underground local. O Le Palace, espécie de Studio 54 de Paris, foi ponto da juventude lisérgica inebriada pelo glamour da disco music. “O Le Palace foi palco das noites sem fim, onde as pessoas se permitiam entrar num mundo paralelo”, disse Alessandro Michele a jornalistas após o desfile.
Sexo, diversão e folclore se unem nas roupas aparentemente fantasiosas que, quando desmembradas, revelam ícones pop.
Uma bolsa em formato de cabeça de Mickey se mistura ao look rosa com o rosto de Dolly Parton, ícone do country americano. A Barbie e o desenho animado estão no mesmo plano de ideias, ironicamente justapostos a camadas do visual libertário de um tempo perdido.
Tudo combinado como oposições do mesmo tema da decadência da juventude sem direção, sem modelos a quem recorrer.