Risco: 2 etapas

O cálculo do risco final para o consumidor de produtos à base de tabaco pode ser dividido em duas etapas.
A primeira depende das emissões de substâncias tóxicas. Para a indústria, está aí o trunfo dos cigarros eletrônicos: mesmo com a nicotina, o nível de substâncias tóxicas sem combustão e fumaça cai entre 90% e 95%.
Mas ainda há uma incógnita na segunda etapa, a de exposição: não se sabe se, na prática, um usuário que tenha substituído o cigarro convencional pelo eletrônico vai fumar mais graças à aceitação social, por exemplo.
Sem dados de, pelo menos, dez anos, não é possível afirmar categoricamente que os cigarros eletrônicos geram menos risco. Isso impede a obtenção de registro como potenciais redutores de danos em diversos países.
A British American Tobacco, da qual a Souza Cruz é subsidiária, diz que planeja um estudo clínico no Japão para investigar se a transição para o cigarro eletrônico melhora a qualidade de vida do usuário -se ele passa a ter mais fôlego ou tossir menos, por exemplo.
Desde 2016, a FDA tem colocado os pedidos de registro de cigarros eletrônicos em banho-maria por falta de estudos que atestem o benefício de substituir os produtos tradicionais pelos novos.
No encontro anual da ONG Food and Drug Law Institute, que aconteceu no mês passado em Washington e do qual participaram FDA, ONGs antitabagistas, advogados e membros da indústria, uma das discussões foi o suposto potencial benéfico para quem quer parar de fumar versus o potencial atrativo para os jovens.
Para Carrie Wade, da ONG RStreet, a situação já chegou no fundo do poço. “Muitos adolescentes vão experimentar o cigarro de qualquer jeito. Se for por um dispositivo que faça menos mal, melhor”, diz ela, que atua com redução de danos no uso de opioides.
Para Matt Myers, da ONG Tobacco Free Kids, no entanto, essa movimentação não passa de um meio de a indústria manter sua clientela. “Se as empresas brigam com as políticas públicas atuais (como advertências na embalagem), quem vai acreditar que elas realmente têm redução de danos como prioridade?”
Analúcia Saraiva, gerente de relações científicas da Souza Cruz, diz que o Brasil já tem baixo índice de fumantes -10,1%, menos que a Islândia ou que o Reino Unido. “Pode ser que algumas pessoas simplesmente não queiram parar de fumar.” Nesse caso, diz ela, o caminho é o de redução de danos. “Isso inclui menos impostos, o que faz com que esses produtos tenham maior penetração entre os que têm baixa renda, que são a maior parte dos fumantes”, diz.
Por outro lado, a política de preço único e de impostos altos ao cigarro no Brasil tem sido apontada como um dos principais fatores que levaram à redução no número de fumantes nos últimos anos.
“Nossa posição é de que quem fuma deve parar e quem não fuma não deve começar. Mas, para quem quer continuar fumando, deve ser dado o direito a essas alternativas menos danosas”, diz Fernando Vieira, diretor de assuntos corporativos da Philip Morris, empresa que declarou recentemente que pretende um dia deixar de vender cigarros tradicionais para trocá-los pelo modelo eletrônico.
A empresa sente que não há segurança jurídica para submeter pedidos de aprovação à Anvisa de seus dispositivos já vendidos fora do país, diz. Para ele, as regras atuais protegem o cigarro convencional.